segunda-feira, junho 12, 2017

O Portador do Fogo - Bernard Cornwell

Crônicas Saxônicas - Livro 10
Bernard Cornwell, o inoxidável, traz a história de uma Inglaterra em processo de formação através dos passos de Uhtred de BebbanburgUhtred Uhtredson, Uhtred Ragnarson, ou ainda, Uhtred o Terrível. São anos e mais anos de uma trama que envolve a família real inglesa, mesmo antes de existir uma Inglaterra. Começando com o rei Alfredo e seu sonho de uma terra unificada entre os Anglos (embora também existissem os Jutos e aquela galera de Gales), Uhtred acompanha cada mudança de poder entre os reinos que um dia formariam um país. E mesmo sendo um pagão, um senhor de si mesmo, com sua fé está baseada nos preceitos dos deuses antigos como Odin e Thor, ele lutou contra as invasões de povos cujas crenças eram as mesmas que as suas. Tudo isso por lealdade. E interesse pessoal também. Mas o que acontece no décimo livro, o décimo capítulo dessa história repleta de batalhas, sangue e mortes?
O Livro 10 das Crônicas Saxônicas segue uma narrativa muito próxima dos demais livros. O autor apresenta um guerreiro cada vez mais velho e astuto em busca da retomada de seu castelo, Bebbanburg (Castelo de Bamburgo), na Nortúmbria, um dos reinos da época. O castelo ficava ao norte, divisando com o reino da Escócia. Nesse ponto Cornwell mostra que a paz entre os povos era uma utopia. Invasões de fronteiras, roubos de propriedades e confrontos eram constantes entre os moradores dos diferentes reinos. Fato.
Outro fato que se mantém na narrativa são as alfinetadas que Cornwell dá, através de Uhtred, na igreja católica, que apoiava as constantes lutas entre os cristãos, mas pregava a paz, que buscava o perdão entre os irmãos, mas que desconsiderava que irmãos também eram todos e não apenas os poucos escolhidos, que pregava a humildade, mas se regozijava em prata e outro sempre que possível, requisitando terras e recursos para a construção de igrejas, porém apoiando a destruição de igrejas dos escoceses, bem como desejando sua morte em confrontos, como se não fossem crentes ao mesmo Deus. O autor mostra um grande conhecimento da igreja católica da época e revela através dos diálogos de Uhtred com padres seu pensamento sobre a religião, sempre com uma pitada de humor do pagão odiado por bispos e demais religiosos.
Sendo o décimo livro fica complicado encontrar surpresas no decorrer do enredo. Uma hora ou outra, se o leitor acompanha desde o livro 1, Uhtred, que foi expulso de Bebbanburg, retomará a fortaleza de sua infância. E é nisso que se baseia esse livro, nas artimanhas que o guerreiro cria para derrotar seu primo, senhor da fortificação da família Uhtred. 
Para tanto, ele precisa sair do cerco deixado no livro 9. É convencido a se retirar por forças contratadas por Uhtred Usurpador (essa alcunha eu quis criar, não lembro se está no livro, mas é que usurpador é uma palavra muito contextual para a situação). Nisso ele se volta a seu genro, tem conversas com o rei Eduardo, com sua eterna paixão Aethelflaed, despedindo-se para sempre dela, e cria um embuste de que está de partida para a Frísia, posiciona o seu pequeno exército em direção ao norte, deixa acertado com seu genro onde ele deverá levar seus guerreiros e apostando sempre na vitória, ele joga entre 18 e 20 nos dados, tira dano crítico quando necessário, toma alguns golpes do adversário, mas nada que o impeça, retoma o castelo de Bebbanburg. 
Eu continuo lendo porque quero ver o fim dessa história. Ela é contada por um Uhtred velho. Há breves relatos do futuro após essa guerra toda. Ele se dirige a seus netos. Sabemos, previamente então, que em algum ponto da vida, seus filhos têm filhos, que ele deixa de guerrear e está estabelecido em algum lugar. A maior parte desse livro é ficção, sem conexão com a história ocorrida na época. Bernard Cornwell disse que não tem previsão para o último livro da saga. A obra se tornou um caça-níquel. Se eu gosto? Sim. As batalhas são muito bem descritas. Nesse livro Uhtred usa muitos recursos. Barcos, cavalos, lanças, escudos, espadas. Faz incursões à floresta, se esconde, faz mil e uma estratégias para superar seus adversários. Mas tudo já foi visto. Tudo mesmo. Nada de novo. É ótimo ler. Sério. Mas está chato esperar tanto para saber quando Uhtred pendura as chuteiras, ou no caso do guerreiro pagão, as espadas, escudos, seax, machados ou qualquer outra coisa que possa ferir.
Dedo desproporcional em relação à capa, pois eu quis assim

terça-feira, abril 11, 2017

O Herege (A Busca do Graal) - Bernard Cornwell

A busca pelo Graal finalmente chega ao fim. Este é o último volume da obra A Busca do Graal,  dividida em 3 livros. O Herege finaliza a história que tem Thomas de Hookton como protagonista. O jovem arqueiro inglês, de origem francesa e nobre, porém filho bastardo e pobre de um padre que roubou e fugiu de sua família, migrando para a Inglaterra, consegue atingir alguns de seus objetivos, ao passo que o cavaleiro da peste adentra a Europa em 1347.
Como já mencionado, a Guerra dos Cem Anos é o pano de fundo para a história. A Inglaterra faz incursões na França, e graças às táticas de guerra e também aos arqueiros ingleses (as armas de fogo eram terrivelmente ruins, caras e pouco eficazes) que eram o terror de seus adversários, avançam em muitos lugares. Thomas, junto de seu amigo Robbie, o escocês, e de Sir Guillaume, leva seu grupo de homens para o interior da França. A ideia é chamar a atenção de seu primo Guy Vexille. Mas até que isso acontecesse, ele salva uma mulher da fogueira, perde a confiança de seu amigo Robbie, é afastado de seu bando e se eu continuar a escrever perderá a graça.
O que podemos tomar como base é a descrição da peste negra que assolou o mundo a partir de 1347. Vinda da ásia, a peste até hoje não foi bem esclarecida. A principal ideia é que as pulgas presentes nos ratos carregavam a bactéria, atingindo os seres humanos através da picada destas pulgas. As camas eram feitas de palha, local onde os ratos se escondiam. Ratos gostam de passar o dia escondidos. A descrição da doença como Peste Negra se dá pelos sintomas relatados por escritores da época. "Os sintomas incluem inchaço dos gânglios linfáticos, que podem ficar grandes como ovos de galinha, na virilha, na axila ou no pescoço. Eles podem ser sensíveis e quentes. Outros sintomas incluem febre, calafrios, dor de cabeça, fadiga e dores musculares."  Alguns historiadores apontam que 50% dos moradores da europa morreram em apenas 1 ano. Alguns dizem que esse número foi ainda maior. O que Cornwell relata é que muitas pessoas morreram, inclusive em sua história. Thomas escapa da peste. E isso é absolutamente possível. Nem todas as pessoas pegaram a peste e nem todos morreram, mesmo tendo sido infectados. Isso é mais um mistério da medicina. O médico do Papa da época pegou a peste e se curou. Fez muitos relatos e hoje é visto como um dos pilares da medicina moderna, por ter examinado e descrito o que viu em seus pacientes, bem como aquilo o que sentia enquanto doente e o que fez para manter-se vivo. Embora essa informação não seja compartilhada no livro, achei interessante colocá-la aqui, pois há um contraponto que esclarece uma questão de saúde pública. Em determinado trecho da história, Thomas mantém contato com leprosos, doença hoje chamada de Hanseníase, e que por milênios acreditava-se que o contágio se dava pelo toque no paciente, ou no uso de seus pertences. Enfim, os leprosos eram afastados do convívio social com outras pessoas e essa doença era a terrível peste do mundo. O abade Planchard, que se torna amigo de Thomas, confirma a ele que não é assim que se pega a doença, senão todos os padres, abades, freis, etc, que cuidam dos doentes (em uma abadia na qual Thomas e sua garota se encontraram em determinado período da história) estariam com a terrível doença. Hoje sabemos que a doença se espalha por gotículas de água no ar, contágio através do espirro e tosse, e que mesmo assim há chances de não contrair a doença, dependendo da saúde de cada indivíduo.
A informação é dada a Thomas quase no mesmo instante em que recebe a informação de que uma peste se espalha na europa e mata metade da população de cada localidade. A Peste Negra tomou o lugar da lepra como a Peste do Cavaleiro da Trevas, anunciada na Bíblia.
Outro ponto interessante e que permeia o período medieval é a religiosidade, o medo da igreja católica. Muitas crenças herdadas de culturas mortas andam lado a lado com a maneira cristã de viver. Cada comunidade tem as suas e as misturam com o jeito católico de ser, mas há um medo fortíssimo da igreja. O Papa é um líder poderoso, que comanda muitos fiéis. Quando a peste chega muitos acreditam que seja um castigo de Deus pela sua maneira infiel de viver e acabam buscando as igrejas, se instalando lá. A peste matava em poucas horas, mas tudo devido às péssimas condições de vida da época. Gosto muito de ler na minha casa, tomando um café, uma água, estando aquecido, enfim, tenho conforto. Não sou rico, longe disso, porém ao ler sobre esse período me sinto privilegiado. As condições eram terríveis, e mesmo não sabendo exatamente o que foi a Peste Negra, as mortes foram substancialmente multiplicadas por causa dessas condições. Na época vivia-se uma aglomeração de pessoas. Facilmente vilas eram criadas, fortificações surgiam. Lembrando que o sistema era feudal e que a maioria da população era paupérrima, devendo sua vida aos senhores, que faziam o que bem queriam, desde que pagassem impostos aos seus superiores, os reis. Com as pessoas aglutinadas em locais como a igreja, a morte corria como um corcel.
Thomas não faz mais parte dos crentes. Ainda que acredite em Deus e tenha sofrido muito por ter sido excomungado, ele segue sua vida de volta à Inglaterra e ao Graal, sem ter contraído a doença. Isso me faz pensar que o autor tenha colocado essa ideia de heresia para mostrar que ser católico não trará salvação terrena alguma, que todos somos mortais e que ninguém é superior aos demais por ter determinada conduta religiosa. Ao encontrar o que ele supôs ser o Cálice Santo, realiza um ritual de purificação para si e para sua amada, a garota salva da fogueira, tida como uma bruxa ou algo parecido, tornando-os cristãos novamente pelo poder da Taça. Após, segue um conselho de Planchard e atira o Cálice no mar, longe de tudo e todos, para que essa busca que matou tantas pessoas acabe. É o medo da igreja que faz com que Thomas deixe de ser um herege, mas é o fato de ter sido um herege que o deixou vivo, pois ele "foge da doença". Muitos nobres sobreviveram ao período crucial de 1 ano de peste por terem avançado seus postos para casas de veraneio no interior, longe das pessoas, da aglutinação de pessoas da urbe. Longe também da concentração de ratos e pulgas. O nosso protagonista fez quase o mesmo em seu retorno, andando pelo interior, afastado das pessoas. Como um herege fugindo da justiça dos homens, ele age como os leprosos, vivendo entre as sombras da civilização. Outro ponto visto no livro, quando ele se camuflou vestindo as roupas dos leprosos, sem ter medo de contrair a doença. É um recado do autor de que não importa sua inclinação religiosa, bom mesmo é ser bom com as pessoas. Embora houvesse uma guerra, cada povo envolvido queria o Graal por ele "ter o poder de acabar com a guerra". Seria mais fácil atingir esse objetivo se eles não guerreassem. O Graal não salvou ninguém da peste. Talvez a sua busca tenha salvado Thomas e seu pequeno grupo.
O livro termina com o fim do Graal. Ou pelo menos com o fim do Graal do padre Ralph, pai de Thomas. Há relatos de outros Cálices Santos pela Europa. Assim como outros artefatos santos, como espinhos da coroa de Cristo, pedaços da cruz, dentre outros. O mistério do Graal chega ao fim. Já o mistério da real origem da peste e toda a consequência de tantas mortes apenas começara.


segunda-feira, março 13, 2017

O Andarilho (A Busca do Graal) - Bernard Cornwell

A saga de Thomas de Hookton (Vexille) em busca do Graal continua. Dessa vez, Thomas sobe até o norte da Inglaterra para perder um grande amigo e sua mulher, ambos emboscados. Ainda luta uma guerra e ganha inimigos de dentro da própria Inglaterra, bem como novos velhos inimigos, como seu primo Guy Vexille, já apresentado no começo do primeiro livro O Arqueiro. Ele ganha também parceiros, mas isso já soma muito spoiler para um texto só,
A narrativa de Cornwell é fluida, avança rápido em direção à batalha, mas um pouco mais devagar quando se trata de situar a personagem no contexto histórico da Guerra dos Cem Anos. As batalhas são descritas, bem como os entraves da igreja católica dentro dela. Podemos ler sobre a tomada de poder da igreja dentro das nações, pois agora não só França e Inglaterra aparecem na obra, como a Escócia. Todas elas possuem representantes da igreja e, por mais que todas pertençam à Igreja Católica, cada uma delas possui a sua singularidade, além de alegar serem os legítimos representantes de Deus, e assim, devem ter para si o Graal, símbolo máximo do poder de Deus, e que pode realizar façanhas inimagináveis, como trazer a paz. Há um diálogo interessante em que vemos um bispo francês tramando a transposição do papado para uma cidade da França em que ele era bispo, retirando o poder de Avignon, (residência papal no período relatado na obra), que para ele não era merecedora, assim como Roma também não era. Uma breve analogia pode ser feita com o que Hitler queria fazer com Linz, cidade em que morou na infância.
Voltando ao texto, enquanto França e Inglaterra lutavam pela disputa de terras iniciada pelos seus reis, e seus súditos morriam aos montes, e os que viviam eram estuprados, escravizados, viam seus pertences serem roubados e seus senhores nada podiam fazer (lembre-se, era um período feudal, em que todos já viviam numa situação nada cômoda), membros da igreja planejavam lucrar muito com tudo isso. E nisso está a personagem principal da história, Thomas, encarregado de encontrar o maior tesouro da igreja católica, o Graal. Mas seus inimigos estão em seu encalço, sedentos pela ganância que essa lenda desperta há séculos.

quarta-feira, março 01, 2017

O Arqueiro (A Busca do Graal) - Bernard Cornwell

O Arqueiro é o primeiro livro da trilogia A Busca do Graal, do escritor Bernard Cornwell. Tendo como pano de fundo o início da Guerra dos Cem Anos, ocorrida entre os séculos XIV e XV, em que ingleses e franceses disputaram batalhas e mais batalhas em busca da afirmação de poder, o personagem principal é Thomas de Hookton, um jovem arqueiro que estudara para padre e que viu sua pequena vila ser destruída, seus pais mortos e uma relíquia da família ser roubada por invasores franceses.
Prometendo vingança, Thomas vai em direção à guerra, para servir como arqueiro inglês onde precisassem dele. Com o tempo, ele se mete em confusão com um nobre, é obrigado a fugir, arrasta uma mulher com ele, se mete em mais confusões e retorna ao exército inglês. Depois ele é enforcado, salvo pela pessoa que matou seus pais, descobre parcialmente de que família é e quem mandou matar seu pai e roubar a relíquia, faz um acordo com o homem que o salvou e ainda leva a filha desse homem como sua companheira em mais aventuras. O que liga o personagem à busca pelo cálice sagrado é o fato de sua família ter sido detentora dessa relíquia em épocas remotas e seu pai ter surrupiado e a levado para a Inglaterra, motivo esse que levou um misterioso homem fazer aquela incursão na vila e levar uma lança de prata como prêmio. Sabendo da história anos depois, apenas, ele parte em busca da verdade sobre quem é e em busca de recuperar o Graal, cálice sagrado que traria a paz entre as nações que estão em guerra.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Quando Ray Bradbury nos deixou, em 2012, eu estava na faculdade (pela segunda vez). Ouvi de alguns professores (cursava Relações Públicas) que este romance foi um marco em suas adolescências e que os motivou a cursar comunicação, ainda que não tivessem percebido isso no momento, somente algum tempo depois de estarem cursando.
Decidi ler a obra em 2017, embora tenha comprado o exemplar em dezembro de 2016. Encontrei muitos diálogos interessantes, monólogos também, confusões de um personagem que não sabia exatamente o que estava fazendo com o mundo, mas que havia percebido que a bolha que o envolvia desapareceu. Como alguém que acorda de um pesadelo, mas que não consegue contar a ninguém o que estava acontecendo, pois ninguém acreditaria, e pior, o levariam à morte caso mantivesse o discurso inflamado sobre a realidade. Viver de sonhos é bem melhor para muitas pessoas.
O que ocorre com Guy Montag, bombeiro queima livros, é ver-se como vilão em um mundo em que as pessoas não mais questionam as ordens dadas. Não há criticidade, tudo ocorre na velocidade máxima, como os carros numa freeway. Para isso, os livros foram abolidos do universo em que os personagens vivem. E essa é a nova função dos bombeiros, queimar os livros.
O quanto somos influenciados pelas ordens dadas pelos governos? Quanto respeitamos a autoridade? Quando agimos pelo medo estamos realmente obedecendo aquilo que é o certo ou só o fazemos para não sofrermos represálias? A sociedade da qual fazemos parte tem consciência do mundo ou age automaticamente, um dia após o outro?
Nesse universo em que não podemos ler o que mais ressalta o autor é o fato de não questionarmos. Os personagem tomam pílulas e mais pílulas para não sentir qualquer sintoma. É o hedonismo em forma de remédios. A televisão do tamanho da parede (ou é a própria parede), as conchas nos ouvidos para ouvirem aquilo que são determinados a ouvir, os demais aparelhos tecnológicos são mais psicológicos que qualquer coisa. Um grande apelo vem de um personagem já idoso e que se queixa, em uma das conversas com Montag, sobre ter deixado que tudo isso acontecesse, pois viu a mudança acontecer, mas nada fez para impedi-la.
Deixando Fahrenheit 451 de lado (Bradbury escreveu no início da Guerra Fria essa obra) a realidade de 2017 são grupos e mais grupos de indivíduos que compartilham de algumas semelhanças ideológicas e que buscam provar seus pontos de vista, sem medo de agredir verbalmente quem quer que seja. Não se colocam no lugar do outro, que também é um humano, cheio de ansiedade, dúvidas, questões nunca resolvidas, que busca se afirmar como ser, alguns mais outros menos. Ninguém consegue estar totalmente correto. Não acredito que a verdade seja escrita por apenas uma mão. Há quem acredite. Em todo caso, convivemos todos no mesmo mundo, e as divergências nunca vão parar por aí. A tolerância precisa ser desenvolvida. Muitos jovens desse mundo ocidental não sabem o que é guerra. Confundem violência com guerra. Guerra não tem equivalente, mas muitos agem em favor dela, buscam, com palavras e atos, incitar essa situação. Quando podemos pensar, quando podemos racionalizar nossos atos, vemos que a guerra é contra o que buscamos, tanto faz o lado de que se esteja. Não são os livros que vão nos dizer o que devemos fazer, mas o próprio pensamento, pensar antes de agir. É bonito ler sobre a guerra. Não é nada bonito estar nela.
A humanidade sobreviveu e se desenvolveu sem livros também. O que Bradbury nos conta é que temos que pensar por conta, não pegar tudo mastigadinho e sair por aí vivendo alienadamente.
Valeu muito a pena ler esta obra. Antes que alguém a proíba. Ou que fique no esquecimento. Ou vire combustível de uma fogueira de refugiados da próxima guerra.

domingo, janeiro 08, 2017

O homem que caiu na Terra - Walter Tevis

Comecei a ler este livro na noite de 2/01 e já terminei sua leitura na madrugada de 6/01. São pouco mais de 200 páginas de uma história curta, porém objetiva. A obra foi publicada em 1963, em plena confusão da guerra fria, após a Segunda Guerra Mundial e outras guerras, como a da Coreia. O autor se baseia em um mundo em que as relações diplomáticas entre países estão profundamente abaladas após tantas guerras. Até o Brasil teve suas relações cortadas com os Estados Unidos, o que resultou em escassez de café ao país ao norte da linha do Equador.
A história começa no ano de 1985, e como o título do livro diz, um homem um tanto quanto diferente está na Terra. Não sabemos exatamente seus planos, porém seus inventos aprimoram equipamentos existentes no planeta, o que desperta a atenção do governo norte-americano e também de um cientista, intrigado com as revelações de filmes fotográficos. A reputação de Nathan Bryce, químico que trabalha em uma universidade, faz com que seja contratado pela empresa do homem que caiu na Terra, Thomas Jerome Newton, a World Enterprises Corporation. A outra personagem recorrente na história é Betty Jo, governanta da mansão e da vida de Newton.
Não vou mais contar mais detalhes sobre a história. O que me levou a considerar alguns pontos interessantes sobre o livro é a capacidade de arguir que se tivéssemos alguém, um ser especial, com ampla capacidade de raciocínio, e que viesse para este planeta para nos alertar sobre o fim do mundo através de guerras, colocaríamos ele na cadeia. Primeiro, por ser de outro planeta, e depois porque a guerra movimenta esse mesmo mundo. Basicamente o plano do alienígena é resgatar seu povo, que fora destruído com tantas guerras, ao mesmo tempo que destruiu seu mundo, seus recursos naturais. Ao chegar na Terra ele fica maravilhado com o simples fato de termos água. Mesmo escrito em 1963 esse é um tema cada vez mais atual. Poucas vezes percebemos o quão bom é termos água potável em nossas casas, como é bom termos chuvas, podermos represar essa água que cai do céu. Ano passado trabalhei em um congresso em que um professor americano dizia que botamos nossa água fora. Moro no Rio Grande do Sul, e na região que vivo a média anual é de 1.800 mm, enquanto que na região onde este professor trabalha são 1.000 mm a menos, e mesmo assim eles produzem mais grãos do que aqui. Eu costumo fazer breves relatos sobre o que li, pois tenho uma memória muito ruim. Não sou capaz de dar detalhes das histórias que li ou vi sem ter algo anotado. Gosto da literatura, mas faço a leitura dela por diversão. Entretanto, nesse texto, quero discorrer rapidamente sobre um enorme erro que cometemos. Há um ditado popular que diz que dinheiro não cai do céu. Aqui está o erro. Dinheiro cai do céu. A cada chuva que temos é dinheiro caindo e se esvaindo por valetas de esgoto, rios de dinheiro desperdiçados. A radiação solar é pouco aproveitada. São raios e mais raios que fazem uma viagem enorme saindo da nossa estrela fundamental e que poderiam ser transformados em energia, mas que também são desperdiçados em sua gigantesca maioria, assim como os ventos, invisíveis que são, continuam sendo, e sua jornada ao redor do planeta passa despercebida, lembrada apenas quando temos catástrofes, desencadeadas, muitas vezes, pela interferência do homem e sua incrível ganância de se tornar invencível até o dia de sua morte, como o governo retratado na história de Walter Tevis, que por medo de perder poder, não divulga que um ser extraterreno está na Terra e que seu objetivo é trazer seus amados para um planeta ainda não destruído, ao passo que pode mostrar o que foi feito de errado na trajetória de sua terra natal e auxiliar a evitar que o mesmo ocorra aqui, pois já estamos nos destruindo. Embora o autor estivesse escrevendo sobre um cenário apocalíptico, não estamos distantes de acabarmos com esse pálido ponto azul em que vivemos.
Espero que essas previsões nada acolhedoras mudem, porém é utopia achar que mudaremos nossa essência irracional de ser.


Sobre a versão da obra pela editora Darkside:


Parabéns! Lindo livro, capa dura, borda laranja com fita marcadora de página. A ilustração da capa e contra faz parte do filme O Homem que Caiu na Terra, com David Bowie fazendo o papel principal do alienígena Antheano.  

Eu disse que era um versão muito legal

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski


No começo de minha escrita decidi que a cada livro lido desta obra (dividida em livros) faria um breve resumo. Mal comecei e parei com esta atividade, tendo em vista que a wikipédia apresenta a obra desta mesma forma. Então voltei meus esforços em fazer aquilo que mais me agrada, escrever sobre o que senti ao ler. Claro, não sem antes descrever um pouco a situação em que se encontram os personagens, afinal, não quero uma bagunça, mas algo em que possa ler e retornar a experiência vivida.
A trama se desenvolve em torno das desventuras da família Karamázov, tradicional família de sensuais, sendo Fiódor o patriarca e Dmitri (Mitia), Ivan e Aliêksei (Aliocha) seus filhos. Fiódor faz estimada fortuna ao casar-se pela primeira vez, embora tenha se casado duas vezes. Teve um filho do primeiro casamento e dois do segundo, porém nunca teve relação com seus filhos, nunca os criou, delegando (ou relegando) essa tarefa a empregados ou parentes de sua ex-esposa.
A história começa a pegar fogo quando seus filhos já estão adultos (ou praticamente, Aliocha é novo, mas nem tanto) e acabam voltando suas ações ao descarado patriarca russo. O que mais me chamou a atenção nesse ponto é o fato de que tanto o velho Fiódor quanto seus filhos atraem as mulheres, eles são considerados “sensuais por sua natureza”. Esse tema é bastante discutido durante a história. Dmitri tem uma noiva, mas é atraído por Grushenka, que dá atenção também a Fiódor. Ivan se aproxima da noiva de Dmitri, mas não admite seu interesse, mesmo quando Aliocha tenta meter a colher onde não é chamado, Ivan renega seus sentimentos e Aliocha se aproxima de Grushenka, que por sua vez sempre bradou que tinha interesse em Aliocha, sendo que este despertou o interesse de uma menina chamada Lisa, que mora com a ex-noiva de Dmitri, Katierina. Só sei que esses “kara” tem borogodó.
Outro tema proposto é o da existência de Deus. Ivan formula algumas teses dentro da obra através da criação de um conto em que Jesus Cristo retorna à Terra, mas é rejeitado por promover a desordem e o caos, por causa de sua vinda. Por sua vez, Aliocha faz parte de um “mosteiro”, por assim dizer, e tem como Zózimo seu mestre e mentor. Zózimo morre no decorrer da história e é venerado por muitas pessoas, ao passo que desperta a inveja de outros monges, o que faz gerar histórias a favor e contra essa pessoa. Tem-se muita discussão sobre a religião e a forma como os russos a encaram. Além de algumas festas. As festas que Mítia deu merecem uma breve descrição. Ok, nem tanto, mas poderíamos considerá-lo um “rei do camarote” da época. Champagne, música ao vivo, confusão, brigas… Parece até uma festa atual, mas com Mítia bancando tudo, gastando muito dinheiro em poucas horas. Isso é um tanto perturbador. Os personagens da história criticam Dmitri por ele não se importar com o dinheiro. Parece alguém que não dá bola para o amanhã, para o futuro, vive o presente, carpe diem, embora a situação não seja assim favorável. São muitos elementos descritos na obra que lembram situações atuais, como essa, em que um jovem torra a grana de seu pai em festas
Trata-se de um romance essencial. Todas as pontas estão amarradas, embora Dostoiévski estivesse escrevendo a continuação da obra, que seria mais focada em Aliocha, quando faleceu, sem terminar essa segunda obra. Ler este livro é como poder estar em um pedacinho da Rússia no séc.XIX, em meio a questões religiosas, de reavaliação da identidade russa, além de uma grande confusão entre amores não vividos, negação da paternidade, assassinato, tentativa de assassinato, julgamento e festas.